Modelo de Escola Atual Parou no Século 19, diz Viviane Senna
Para presidente do Instituto Ayrton
Senna, sistema educacional prepara alunos para mundo 'que não existe mais'
BBC BRASIL.com
5 JUN2015
05h53
atualizado às 14h26
A
psicóloga Viviane Senna poderia ser conhecida apenas por ser a irmã do piloto
de Fórmula 1 Ayrton Senna, morto em maio de 1994. O trabalho que vem realizando
há duas décadas à frente do instituto que leva o nome do irmão, porém, fez com
que também se tornasse uma das figuras mais proeminentes no debate sobre
educação no Brasil.
O
Instituto Ayrton Senna (IAS) foi idealizado pelo piloto, mas só saiu do papel
após sua morte, em novembro de 1994, quando sua família cedeu à entidade os
direitos sobre a imagem de Senna. Desde então, vem atuando em projetos para
melhorar a eficiência de instituições de ensino em todo o país, organizando
desde programas de reforço escolar e capacitação de professores até sistemas de
gestão de recursos.
Seus
projetos atendem a cerca de 2 milhões de crianças a cada ano, sendo em parte
financiados pelo licenciamento de produtos da grife Senna - que vão de capas de
smartphone a macarrões instantâneos, relógios e artigos de papelaria.
No
mês passado, o instituto abriu uma nova seara de atuação com a inauguração do
chamado "Edulab21", um laboratório de inovação dedicado a produção e
disseminação de pesquisas científicas que possam contribuir para a formulação
de políticas públicas para a educação.
Entre
seus integrantes e colaboradores estão o economista Ricardo Paes de Barros, um
dos arquitetos do programa Bolsa Família (agora no IAS), o economista Daniel
Santos, da USP, e os psicólogos Filip de Fruyt, da Universidade de Ghent,
Oliver John, da Universidade da Califórnia, e Ricardo Primi, da Universidade de
São Francisco.
"A
ideia é gerar e disseminar conhecimentos que possam ajudar a levar o século 21
para dentro da escola", explica Viviane. Em uma cerimônia para promover a
iniciativa, a psicóloga explicou para a BBC Brasil por que acredita que o
sistema educacional parou no século 19 e o que é preciso fazer para resolver
esse problema. Confira:
BBC Brasil - Por que a senhora diz
que a escola está ficando para trás?
Viviane Senna - Se pudéssemos transportar um cirurgião do
século 19 para um hospital de hoje, ele não teria ideia do que fazer. O mesmo
vale para um operador da bolsa ou até para um piloto de avião do século
passado. Não saberiam que botão apertar. Mas se o indivíduo transportado fosse
um professor, encontraria na sala de aula deste século a mesma lousa, os mesmos
alunos enfileirados. Saberia exatamente o que fazer. A escola parece
impermeável às décadas de revolução científica e tecnológica que provocaram
grandes mudanças em nosso dia a dia. Ficou parada no tempo, preparando os
alunos para um mundo que não existe mais.
BBC Brasil - O que há de tão errado
com a educação hoje?
Viviane Senna - Um dos problemas é que o professor não tem a
menor chance de ser a "fonte do conhecimento", com o conhecimento se
multiplicando de forma exponencial, em questão de segundos. Até o século
passado, uma descoberta revolucionária demorava décadas para acontecer. Hoje,
temos uma grande inovação a cada cinco anos. Só neste ano a previsão é de que
sejam produzidos mais conhecimentos e informações do que nos últimos 5 mil
anos. Na prática, isso significa que se um aluno começa um curso técnico de
quatro anos, por exemplo, quando chega ao terceiro ano, metade do que aprendeu
no primeiro já está defasado.
Não
dá para continuar com um sistema em que o professor é o detentor do conhecimento
e o aluno um arquivo em que esse conteúdo deve ser "depositado" -
basicamente, o modelo do século 19. Precisamos levar o século 21 para a escola.
O que significa criar sistemas que deem aos alunos oportunidade e capacidade de
acessar esse arsenal de novidades produzido de forma constante em diversas
disciplinas.
BBC Brasil - O que seria a escola do
século 21?
Viviane Senna - Quando falamos em escola do século 21 as pessoas
pensam que estamos falando em levar tablets e smartphones para as salas de
aula. Não é só isso. É claro que essas novas tecnologias da informação são
importantes, mas não são suficientes. São uma pequena parte dessa imensa
revolução na produção de conhecimento que estamos vivenciando. O que precisamos
é de uma escola que consiga preparar as crianças para viver, se relacionar e
trabalhar em um mundo complexo como o que temos hoje, uma sociedade e uma
economia do conhecimento.
A
criança não pode apenas decorar conceitos ou receber informações do professor.
Precisa desenvolver um pensamento crítico e um raciocínio lógico aguçado,
desenvolver sua capacidade de inovar, ser criativa e flexível e de resolver
problemas. Essas habilidades socioemocionais são cruciais para que as pessoas e
países possam prosperar. E o professor deve ser um mediador nesse processo.
Mais do que o conhecimento certo, precisamos fomentar as atitudes certas.
Qual
casamento sobrevive se o casal não tiver muita flexibilidade, persistência,
criatividade? Não adianta ser inteligente. Essas habilidades são determinantes,
seja na vida pessoal, na família, no trabalho e na vida em sociedade. E elas
podem e devem ser desenvolvidas intencionalmente. Devem deixar de ser um
currículo oculto para se tornar uma meta do sistema de ensino, como a aquisição
de determinados conhecimentos de português e matemática.
BBC Brasil - O que pode servir de
inspiração para a mudança?
Viviane Senna - Há diversas experiências interessantes nessa
área. No Japão, por exemplo, desde a pré-escola as crianças passaram a receber
brinquedos grandes, com os quais não podem brincar sozinhas. Elas precisam da
ajuda dos amiguinhos. O objetivo é desenvolver a competência de colaboração nos
alunos desde pequenos, porque eles já entenderam que essa capacidade de
trabalhar em grupo será importante para os japoneses em um mundo globalizado,
em que eles têm de lidar com pessoas e povos de cultura diferentes.
No
Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro, em parceria com a Secretaria
Estadual de Educação do RJ, já trabalhamos esses conceitos sobre os quais
falei. Os alunos participam de três tipos de projetos: de intervenção, em que
trabalham em times para levar adiante ações envolvendo a escola e a comunidade;
de pesquisa, em que fazem pesquisas relacionadas a diferentes áreas de
conhecimento; e os projetos de vida, em que refletem sobre suas trajetórias
escolares e vivenciam situações que lhes permitam construir suas identidades e
projetos de vida.
Em
escolas públicas do interior de São Paulo, junto com a Secretaria Estadual de
Educação de SP, desenvolvemos soluções educacionais em que os estudantes
desenham e colocam em prática ações para melhorar a escola e comunidade. E,
para chegarem a soluções para problemas reais, aprendem conceitos básicos das
disciplinas regulares, como Português e Matemática. Também criamos, em parceria
com a OCDE e as secretarias estadual e municipal de educação do Rio, um sistema
para avaliar o os resultados desses projetos, o SENNA - sigla em inglês para
avaliação nacional de competências socioemocionais ou não cognitivas.
BBC Brasil - O Instituto Ayrton Senna
está lançando um centro de estudos que vai coletar e produzir pesquisas para
contribuir para a 'evolução' da escola. Que tipo de descoberta pode ajudar?
Viviane Senna - Na área de neurociência, por exemplo, estamos
avançando no conhecimento das chamadas funções executivas, ligadas ao córtex
pré-frontal. Algo que se descobriu recentemente, e que tem sido confirmado por
pesquisas na área de psicologia e economia, é que as capacidades de você
autorregular seu comportamento, estabelecer metas e ser persistente na busca
dessas metas, ter disciplina e responsabilidade têm um impacto imenso na
aprendizagem escolar e na sua trajetória pessoal e profissional.
Uma
criança disciplinada, perseverante e focada aprende. E as pesquisas mostram que
pode ter tanto ou mais sucesso na escola e fora dela do que uma criança
considerada muito inteligente, com QI alto. Não adianta ser um Einstein em
potencial. Então algo que precisamos pensar seriamente é como desenvolver essas
qualidades. Outra coisa interessante que as pesquisas têm mostrado é que as
habilidades socioemocionais podem ter um impacto maior que o nível
socioeconômico de uma criança em seu desempenho escolar.
BBC
Brasil - Como assim?
Viviane Senna - Há
vinte anos, era comum ouvir no Brasil que as crianças pobres não conseguiam
aprender direito porque eram subnutridas, não comiam bem. Esse discurso foi
superado, mas muita gente ainda continua tentando atribuir o problema do
fracasso escolar a dificuldades criadas pelo nível socioeconômico dos alunos.
Como se esse fosse um fator determinante. A escola lava as mãos. Diz: a criança
não aprende porque é pobre, vem de uma família desestruturada.Há de fato alguma correlação
entre nível socioeconômico e aprendizagem, mas o papel da escola é mudar isso.
Senão teríamos de concluir que é preciso enriquecer todas as crianças
brasileiras e suas famílias para que elas consigam aprender - o que é um
absurdo. A educação deve ajudar na ascensão social da criança. Não o contrário.
O que os estudos mostram é que mesmo crianças pobres, com backgrounds
familiares desfavoráveis, conseguem prosperar na escola e na vida se tiverem as
habilidades socioemocionais certas.
BBC
Brasil - Especialistas dizem que, embora nos últimos anos o Brasil tenha
conseguido aumentar a média de anos de estudos da população, ainda não
avançamos na questão da qualidade. Algum sinal de mudança?
Viviane Senna - Na área de educação pública, o Brasil é como um espadachim, obrigado a lutar em duas frentes. De um lado, temos tarefas bastante primárias pendentes. Ao contrário de países desenvolvidos, ainda precisamos ensinar a população competências cognitivas básicas como ler e escrever. Ao mesmo tempo, o país também tem de começar a adaptar as escolas públicas para atender a essas novas demandas do século 21. A boa noticia é que as habilidades requeridas pela realidade de nosso século facilitam o desenvolvimento das habilidades cognitivas básicas. Ou seja, se fizermos avanços em uma frente, avançar na outra se torna mais fácil.
Viviane Senna - Na área de educação pública, o Brasil é como um espadachim, obrigado a lutar em duas frentes. De um lado, temos tarefas bastante primárias pendentes. Ao contrário de países desenvolvidos, ainda precisamos ensinar a população competências cognitivas básicas como ler e escrever. Ao mesmo tempo, o país também tem de começar a adaptar as escolas públicas para atender a essas novas demandas do século 21. A boa noticia é que as habilidades requeridas pela realidade de nosso século facilitam o desenvolvimento das habilidades cognitivas básicas. Ou seja, se fizermos avanços em uma frente, avançar na outra se torna mais fácil.
BBC
Brasil - Mas estamos dando algum passo para avançar na questão da qualidade? Em
um momento o governo promete que seu lema será 'pátria educadora'. Logo em
seguida, a educação é atingida pelos cortes para promover o ajuste fiscal …
Viviane
Senna - O
Brasil está em um momento bastante difícil do ponto de vista econômico,
político e ético. E a educação não pode ser isolada desse contexto adverso. Mas
acho que nossa grande tarefa hoje ainda é identificar qual direção queremos
tomar em termos de educação pública, porque se não sabemos para onde vamos, não
importa se o contexto está favorável ou não. Nenhum vento ajuda quem não sabe
em que porto quer atracar.
Fonte http://noticias.terra.com.br/brasil/o-modelo-de-escola-atual-parou-no-seculo-19-diz-viviane-senna,ba60f8f4a9b4bfed7231d7d8196eea2e5u37RCRD.html
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